Gotas » A menina de trapo
Por Kauê Xavier*
Hoje o Marlom elogiou meu vestido, acredita? Fiquei muito sem graça. Não sabia o que dizer. Será que ele notou meu nervosismo? Mas é muito estranho ele chegar sem motivo algum para falar comigo e muito menos para elogiar meu vestido o qual uso há anos. Mas para acabar com a minha alegria, a Lucí veio me atormentar com suas ofensas. “Só para não perder o costume”.
Ah, na hora do intervalo fiquei sozinha como sempre, entretanto feliz porque pela primeira vez na vida o Marlom falou comigo.
Nossa, o pai não sabe falar outra coisa a não ser “trabalha e pára de conversa!”. O que te falei é segredo, viu? Não é pra contar nem mesmo pra mãe. Ela vive dizendo que a gente tem que arranjar um bom marido, só não pretendo realizar isto tão cedo assim como as irmãs dela.
Você acha que devo ir com que roupa amanhã? É, só tenho essa. A gente pode fazer um vestido novo para daqui três dias, não pode? É simples. Dividimos a quantidade de peças enquanto uma de nós faz o vestido. Teremos que trabalhar em dobro neste final de semana. Se você me ajudar eu te deixo usar também!
Hoje o Marlom não falou comigo. Acho que fui ignorante com ele da última vez. “Ignorante como se não disse nada?”. Ele nem reparou no vestido que fizemos, apesar de todos comentarem que finalmente eu deixei de ir pra escola “vestida de saco”. Se você quiser pode ficar com este vestido. Você é quem realmente merece. Deixe-me continuar trabalhando e passar o dia com o pé no pedal antes que o pai reclame. Não vou me importar com o que dizem. São apenas palavras que não acrescentarão nada. Estúpida! Fui estúpida muitas vezes.
Mamãe sempre diz que não devemos olhar para trás. Discordo! Terei que olhar pra trás toda vez na minha vida quando estiver prestes a cometer mais um erro estúpido como este. Não nasci para sofrer, aliás ninguém nasceu.
Hoje o Marlom me deu este vestido de presente, acredita? Conversamos o intervalo inteiro e me deu este vestido. Não é lindo? Mais uma vez fiquei perplexa. Perguntei pelo qual motivo fizera aquilo e me disse que enxergava muito mais que uma menina de trapo como diziam, só porque sou estranha em relação aos outros. Sim, sou estranha porque ninguém me conhece melhor do que minha “estranhice”. Somos amigas inseparáveis!
Hoje a Lucí se remoeu de inveja porque todos da escola se admiraram com o meu vestido. Foi a primeira vez que não era ela a rainha do centro das atenções (positivas pelo menos, pois eu já garantia minha popularidade com as negativas que me faziam “rainha da sucata”). Não, não encontrei o Marlom hoje.
Hoje a Lucí faltou pouco cortar os pulsos de inveja do meu cabelo. Que nada, a mamãe não sabe dos bóbis que peguei escondido e não saberá. Não conte nada pra ela! Não... não encontrei o Marlom hoje. Foi bom você ter mencionado nele. Não tenho o visto há dias! Semanas talvez... Ah, preciso de um sapato novo!
Depois de muitos, até hoje não o vi mais. Mal recordo a sua voz, apenas recordo daquele vestido. Aquele vestido que me deu amigos, popularidade, olhares apaixonados, sandálias, cabelo, maquiagem, beleza... Beleza? Revesti meu caráter com um vestido de trapo e o desfiei fio a fio, restando somente o que agradava aos olhos dos outros. Beleza, retalhos devorados pela traça.
E hoje eu olho para trás, onde busco meu espelho para recuperar os cacos da minha verdadeira face e redescobrir quem sou eu.
*1° ano do ensino médio da ETEC Suzano.
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