Gotas » Jeca Tatu

 
Enviada por: Eduardo de Lima Caldas
Etiquetas: jeca; tatu; monteiro; lobato;

"Jeca Total deve ser Jeca Tatu / Presente, passado / Representante da gente no senado" (Gilberto Gil).

Ontem ouvindo a música Jeca Total (de Gilberto Gil) comecei a refletir sobre o Jeca Tatu. Mas Jeca Tatu não é um. São vários os Jecas. Na obra de Monteiro Lobato, Jeca Tatu é inicialmente o caboclo preguiçoso; passa pelo caipira vítima da negligência estatal em termos de saúde pública; e termina como Zé Brasil, improdutivo em decorrência da estrutura fundiária do país.

Jeca Tatu é o representante da gente no senado, no Olimpo, na imaginação. Jeca Tatu ateia fogo na mata. Jeca Tatu destrói a terra. Jeca Tatu não precisa ser o roceiro indolente da primeira fase de Monteiro Lobato. Jeca Tatu pode ser, pelo contrário, o latifundiário que cria deserto por onde passa. Derruba a mata, planta soja e faz pasto. Pasto para a pecuária altamente dependente de água, outro recurso mal cuidado.

Então Jeca Tatu é passado. É o Jeca preguiçoso. É o Jeca com amarelão. É o Jeca sem crédito e sem terra para plantar. E Jeca Tatu também é presente. É o mesmo Jeca sem terra e sem crédito. Mas o destruidor da mata, o preguiçoso que incendeia a floresta pra fazer roça, hoje talvez esteja longe de ser o caboclo do mato, ou se o for, talvez o seja por falta de acesso à informação. Mas boa parte do Jeca representante da gente no Senado, o devorador da terra, destruidor das matas e poluidor das águas está longe de ser o Jeca representado pelo Zé Brasil.

Monteiro Lobato foi o precursor do livro infantil no Brasil, da luta pela autonomia energética do país e um importante intérprete da formação social brasileira. Jeca Tatu é uma representação complexa criada por Monteiro Lobato.

Fica aí um convite para a leitura de Monteiro Lobato: Urupês, Zé Brasil, o Saci, e muitos outros. Talvez seja uma boa interface entre meio ambiente e literatura brasileira.


 
Rua General Francisco Glicério, 995 - sala 43 - Centro - Suzano - SP
Site e sistema desenvolvidos por Taxonomia Digital