Gotas » E o sertão vai virar mar?

 
Enviada por: Eduardo de Lima Caldas
Etiquetas: água; desenvolvimento; nordeste; seca; produção;

Sexta-feira, ao ler o artigo semanal de Washington Novaes (OESP) fiquei a imaginar se a profecia de Antonio Conselheiro seria realizada, tamanha abundância de água que há no Nordeste. Ao mesmo tempo penso na desfaçatez dos governantes de plantão.

Washington Novaes apresenta informações interessantes sobre os recursos naturais do Nordeste. O artigo é uma espécie de resenha do livro “A potencialidade do Semi-Árido Brasileiro” de autoria do geólogo e hidrólogo Manoel Bonfim Ribeiro.

Primeiro o tema do semi-árido nordestino é tratado em perspectiva mais abrangente que aquela do combate à seca. Combater a seca no Nordeste é como combater a Floresta na Amazônia ou combater o gelo na Sibéria. É no mínimo equivocado.

Assim, as informações apresentadas indicam que o Nordeste é viável economicamente a partir de suas riquezas naturais e do recurso pretensamente mais escasso, a água. A água, aliás, é ao mesmo tempo um recurso menos escasso do que se pensa e mais mal administrado do que se imagina.

Água no Semi-Árido

O Nordeste tem 70 mil açudes que acumulam 37 milhões de m³ de água que equivale a um terço da vazão do São Francisco no mar por ano. Há um açude a cada 14 Km². Então não falta açude. Talvez estejam mal distribuídos! Agora, o desperdício: 30% da água estocada nos oito maiores açudes evaporam.

Além da água estocada, há a possibilidade de extrair 20 bilhões de m³ de águas subterrâneas. Atualmente só se explora 5% desse potencial.

Culturas para a Produção

O Nordeste tem água doce, potável, passível de ser bebida e usada na agricultura e na pecuária. Agora, o que produzir? Podem-se importar empresas e então há o risco de destruir e subutilizar o potencial econômico local ou pode-se usar de forma inteligente o que o território disponibiliza, desde a mão-de-obra, passando pela água, terra e recursos naturais: peixe, abelha, mel, caprino, caju, umbu, carnaúba, fibras vegetais, dentre outros.

Cada colméia, na região, produz entre 80 e 100 quilos de mel por ano, quantidade bem superior aos 20 a 30 quilos produzidos na França e na Alemanha, graças às floradas dos períodos de chuva.

A caprinocultura possibilita a produção de queijos, leite, peles e couros para artefatos em geral. Alguns municípios já fazem a Festa do Bode, alimentando a indústria do turismo.

O caju é plantado em 800 mil hectares (CE, RN, PI) e gera 250 mil toneladas de castanha por ano.

A partir da cultura do umbu é possível produzir doces e geléias, forragens para caprinos e medicamentos para combater a anemia, o escorbuto e a carência de vitamina C. Além disso, a raiz do umbuzeiro é fonte de água para períodos de escassez.

Tem ainda a carnaúba, chamada de árvore da providência, tamanha sua importância. Dela se aproveita tudo. Do tronco, tem-se madeira moderadamente pesada, macia, fácil de aplainar, resistente, de longa durabilidade quando em água salgada.

Das folhas obtêm-se a cera, usada para iluminação (velas), como selo protetor de frutas na exportação, como graxa de sapato, verniz, lubrificantes, sabonetes, fósforos, isolantes, dentre outros.

Das folhas secas, obtêm-se a piaçava usada ns cobertura de cascas, confecção de chapéus, bolsas, esteiras, cordas, cestos, colchões e vassouras.

Além de tudo isso, tem-se o coco e as amêndoas ricas em óleo.

Finalmente, tem a indústria do sisal ressurgida na Bahia e seu vigor na produção de tapetes, carpetes, estofados, cordoalhas e cortisona; e tem também a cultura do algodão (principalmente o orgânico, branco e colorido).

Assim, diante de tanto território, sol, água e gente, percebe-se que, ao contrário do que se propaga, há recursos naturais e muita água, capazes de gerar trabalho e renda. O que falta é uma elite capaz de construir um projeto decente de desenvolvimento.
 
Rua General Francisco Glicério, 995 - sala 43 - Centro - Suzano - SP
Site e sistema desenvolvidos por Taxonomia Digital