Gotas » E o sertão vai virar mar?
Washington Novaes apresenta informações interessantes sobre os recursos naturais do Nordeste. O artigo é uma espécie de resenha do livro “A potencialidade do Semi-Árido Brasileiro” de autoria do geólogo e hidrólogo Manoel Bonfim Ribeiro. Primeiro o tema do semi-árido nordestino é tratado em perspectiva mais abrangente que aquela do combate à seca. Combater a seca no Nordeste é como combater a Floresta na Amazônia ou combater o gelo na Sibéria. É no mínimo equivocado. Assim, as informações apresentadas indicam que o Nordeste é viável economicamente a partir de suas riquezas naturais e do recurso pretensamente mais escasso, a água. A água, aliás, é ao mesmo tempo um recurso menos escasso do que se pensa e mais mal administrado do que se imagina. Água no Semi-Árido O Nordeste tem 70 mil açudes que acumulam 37 milhões de m³ de água que equivale a um terço da vazão do São Francisco no mar por ano. Há um açude a cada 14 Km². Então não falta açude. Talvez estejam mal distribuídos! Agora, o desperdício: 30% da água estocada nos oito maiores açudes evaporam. Além da água estocada, há a possibilidade de extrair 20 bilhões de m³ de águas subterrâneas. Atualmente só se explora 5% desse potencial. Culturas para a Produção O Nordeste tem água doce, potável, passível de ser bebida e usada na agricultura e na pecuária. Agora, o que produzir? Podem-se importar empresas e então há o risco de destruir e subutilizar o potencial econômico local ou pode-se usar de forma inteligente o que o território disponibiliza, desde a mão-de-obra, passando pela água, terra e recursos naturais: peixe, abelha, mel, caprino, caju, umbu, carnaúba, fibras vegetais, dentre outros. Cada colméia, na região, produz entre 80 e 100 quilos de mel por ano, quantidade bem superior aos 20 a 30 quilos produzidos na França e na Alemanha, graças às floradas dos períodos de chuva. A caprinocultura possibilita a produção de queijos, leite, peles e couros para artefatos em geral. Alguns municípios já fazem a Festa do Bode, alimentando a indústria do turismo. O caju é plantado em 800 mil hectares (CE, RN, PI) e gera 250 mil toneladas de castanha por ano. A partir da cultura do umbu é possível produzir doces e geléias, forragens para caprinos e medicamentos para combater a anemia, o escorbuto e a carência de vitamina C. Além disso, a raiz do umbuzeiro é fonte de água para períodos de escassez. Tem ainda a carnaúba, chamada de árvore da providência, tamanha sua importância. Dela se aproveita tudo. Do tronco, tem-se madeira moderadamente pesada, macia, fácil de aplainar, resistente, de longa durabilidade quando em água salgada. Das folhas obtêm-se a cera, usada para iluminação (velas), como selo protetor de frutas na exportação, como graxa de sapato, verniz, lubrificantes, sabonetes, fósforos, isolantes, dentre outros. Das folhas secas, obtêm-se a piaçava usada ns cobertura de cascas, confecção de chapéus, bolsas, esteiras, cordas, cestos, colchões e vassouras. Além de tudo isso, tem-se o coco e as amêndoas ricas em óleo. Finalmente, tem a indústria do sisal ressurgida na Bahia e seu vigor na produção de tapetes, carpetes, estofados, cordoalhas e cortisona; e tem também a cultura do algodão (principalmente o orgânico, branco e colorido). Assim, diante de tanto território, sol, água e gente, percebe-se que, ao contrário do que se propaga, há recursos naturais e muita água, capazes de gerar trabalho e renda. O que falta é uma elite capaz de construir um projeto decente de desenvolvimento. |
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