Gotas » Estupro Cultural: A concretude de uma visão míope.
Por Ramon Zago
O programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, é uma iniciativa que subsidia a construção e a aquisição de casas e apartamentos populares para pessoas com renda de até 10 salários mínimos (R$ 5.100,00). Se você acha que o benefício deste programa é direcionado ao cidadão que não tem moradia engana-se. A indústria da construção aposta na construção de moradias populares para abocanhar uma fatia deste bolo faustoso de recursos públicos.
Além da apropriação privada dos investimentos públicos, o programa tem um impacto cultural e paisagístico muito desastroso. A concepção de cidade que está por trás reforça o processo de degradação das paisagens naturais e o marco tecnológico contempla apenas alternativas industrializadas. No limite, o programa quer transformar o Brasil inteiro em uma grande São Paulo. O progresso é construído com concreto e aço desde Getúlio Vargas.
A concretude de uma visão míope não consegue entender os territórios por seus elementos vivos de construção cultural. O Brasil do pau-a-pique, das casas de sapê, será extinto em nome de uma indústria altamente mecanizada que utiliza mão-de-obra quase escrava, mas com habilidade suficiente para fazer reluzir a felicidade da “família brasileira”, patriarcal e burguesa. Os processos comunitários de construção de casas a partir de solo argiloso e madeira são coisas do passado, o negócio é pegar o subsídio do governo e morar em uma casa "concreta" na periferia de algum centro urbano. Pra que preciso de visinhos e de ativos naturais se tenho minha casa, minha família, meu televisor, minha vida?
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