Gotas » O consumo invade a selva, enclausura animais selvagens e chama tudo isso de ecologia.
Que tal fazer um passeio ao Zoológico de São Paulo este final de semana? Prepare os bolsos e não se iluda! Não se trata de um passeio ecológico. Não crie expectativas em relação ao contato com a natureza. O estilo “shopincenter”* invade a selva, enclausura seus protagonistas mais notáveis e os torna atrações das vitrines do consumo desenfreado. E o “Shopping” Zoológico Municipal de São Paulo não tem nenhum problema com isso, pois esta parece ser a sua opção para sustentabilidade econômica. O único problema é com a tentativa descabida de associar a tal empreendimento de consumo a uma idéia de educação ambiental e como uma alternativa para a sustentabilidade ambiental. Sob a égide do cuidado aos animais feridos e/ou apreendidos nas mãos de traficantes, o Zoo paulista apela para a comercialização de produtos voltados para o público infantil, o que em si é uma afronta à sustentabilidade ambiental, embora pareça muito relevante economicamente. Tudo começa com as tarifas de ingresso reduzidas para as crianças, passa pelas opções de alimentação “festifudi” e se consolidam nos produtos oferecidos nas lojinhas de lembranças. E essa estratégia parece dar muito certo. Não se vê um só adulto sem uma criança ao lado pedindo para comprar tudo que vê e impaciente ao ver que o animal está imóvel ou indisposto para lhe fazer satisfeito, se é que alguém ou alguma coisa conseguirá fazê-lo! -Vá ao Shopping Zoológico de São Paulo consumir a selva! Leve as crianças, gaste bastante e fique com a ilusão de que vocês são pessoas que gostam da natureza! Este poderia ser o “eslogam” do Zoo paulista. Num sei se seria mecadologicamente bem aceito, mas pelo menos seria mais honesto com o que oferecem aos “clientes”. É preciso reconhecer que o Zoo tem sua importância para recuperação de animais debilitados, ainda que possam existir alternativas ecologicamente mais interessantes, bem como para manutenção de espécies em extinção, ainda que isso seja de forma artificial e insuficiente para corrigir os dados que o “progresso” traz consigo. A minha preocupação é com as tenebrosas conseqüências relativas à educação ambiental das pessoas que visitam tal atração. O que se espera, do ponto de vista educacional, de um espaço público onde os animais não têm vida, somente sobrevivem; onde coletores de lixo coloridos são a única solução para a produção sem limites de resíduos alimentares de base industrial; onde o máximo de interação com a natureza ocorre quando os visitantes impacientes esmurram o vidro da jaula para ter atendido seu desejo de espetáculo; se o modelo “vitrines da selva” é o melhor que podemos fazer então o homem não merece ser considerado um animal racional. *O uso dessa forma diferenciada de escrever algumas palavras estrangeiras representa uma maneira de protesto e exaltação da cultura brasileira, frente à aceitação e utilização irreflexiva desse tipo de linguagem. |
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