Gotas » Os usuários são mal-educados, os camelôs são criminosos e as intempéries são culpadas pelos atrasos
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Enviada por: Rafael Martins
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Por Ramon Zago
Qualquer semelhança entre os navios negreiros e os trens metropolitanos não é mera coincidência. A lotação e o desconforto são tão corriqueiros que já caíram na banalidade do cotidiano. Embora tenham ocorrido melhorias em algumas linhas, principalmente nas centrais, nos horários de pico é muito comum deparar-se com trens extremamente lotados em que fica muito difícil movimentar-se em que não é preciso segurar-se. Aqueles que conseguem um espaço para sentar em meio a cotoveladas e empurrões tentam descansar os olhos cansados da rotina de trabalho incessante. Para completar o cenário caótico, recorrentemente o trem fica parado, os motivos? Movimentação de trem comercial, problemas de sinalização e, não raramente, problemas causados por obra da natureza: raios e chuvas fortes costumam ser os culpados pelos atrasos. Em meio à lotação sufocante é possível ouvir os insistentes ambulantes e seus slogans cada vez mais criativos: “Promoção shopping trem, compra antes que o rapa vem!”; “Amendoim crocrante cinqüenta, compra se não os home guenta!” Uma mistura de medo, valentia e indignação dão um tom sinistro aos vagões reformados da Companhia Paulista de Transporte Metropolitano - CPTM. Mesmo depois da proibição o serviço de bordo dos trens reluta informalmente por seu espaço de sobrevivência. Os auto-falantes das estações e dos trens anunciam a enorme lista de proibições que os usuários precisam subordinar-se para enquadrar-se nos padrões de conduta e civilidade de um “usuário consciente”. É muito interessante notar que o discurso do “comportamento civilizado” pela “segurança e conforto dos usuários” apresenta uma visão em que o usuário é o vilão da conservação, da limpeza e da segurança nos trens. Como se a falta de transparência na gestão da CPTM e o incentivo deliberado ao transporte particular em detrimento do transporte público não tivessem peso nas consequências adversas que os moradores da metrópole paulistana vivem nos dias de hoje.
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