Gotas » Tragédias anunciadas

 
Enviada por: Rafael Martins
Etiquetas: público; urbana; são; paulo; transporte; mobilidade; bicicletas; morte; ciclovia; insustentavel;

A morte da ciclista na Av. Paulista essa semana indignou muita gente. Essa morte, somada a tantas outras, demonstra a completa insustentabilidade da cidade de São Paulo. Uma cidade de transito caótico, mal planejada, estrangulada e na contra-mão do que acontece no mundo.

O fato de morar na Europa estimula comparações; muitas vezes injustas, é verdade. Porém, mostra como a qualidade de vida em São Paulo é baixa, próximo do inaceitável para uma cidade vibrante, responsável por mais de 35% do PIB brasileiro.

A discussão sobre alternativas ao trânsito insuportável e agressivo da cidade não é nova. Governos novos são eleitos e o problema piora. Soluções definitivas são custosas, demoradas e demandarão recursos, tempo e muita vontade política. Será necessário mostrar aos cidadãos que o carro não necessário, muito menos desejável. No Brasil, historicamente, carro é sinonimo de status, sonho de consumo.

Em São Paulo não existem ciclovias nem faixas destinadas aos ciclistas. Pelo contrário, as administrações cavam novos espaços para os automóveis. Estamos na contramão. A maioria das cidades európeias estão restringindo o tráfego dentro do perimetro urbano, principalmente nas áreas mais centrais. Muitos irão argumentar que essas cidades dispõem de malhas abrangentes de transporte público. É verdade, porém São Paulo e tantas outras cidades brasileiras não podem mais se esquivar do problema. É necessário enfrentá-lo. O financiamente para isso poderá vir de diversas fontes, incluindo aumento de impostos dos veículos, pedágios urbanos, etc. Ao longo dos anos, o componente cultural – que carro é sinônimo de status – também será transformado.

Aqui em Amsterdam, onde resido atualmente, existem 400 km de ciclovias. Toda infrastrutura da cidade favorece o transporte público e as bicicletas. Estive em Paris recentemente, e eles seguem na mesma direção. Restrigem automóveis, incentivam os transporte público e disponibilizam bicletas nas áreas centrais por preços razoáveis.

Em São Paulo a adesão a esse serviço está sendo baixa. Ninguém respeita os ciclistas, que são vistos como estorvos, já que a cultura é do automóvel, e poucos acreditam que um dia teremos um transporte público abrangente e eficiente.

O poder público e a sociedade precisam refletir e buscar soluções urgentes sobre o atual modelo de mobilidade urbana adotado na capital. Os custos associados às mortes no trânsito, poluição, estresse e prejuízos econômicos de diversas ordens, devido ao tempo elevado de deslocamento, já fazem valer a pena o investimento em transporte público e alternativas como as ciclovias.

Enquanto a população sonhar com seu automóvel, governantes continuarão a dar soluções paleativas e insustentáveis. E tragédias como a dessa semana, e tantas outras decorrentes do modelo atual, continuarão a acontecer.

Precisamos mudar! E tem que começar agora.
 
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