Gotas » Uma Pena perder sem nem ter conhecido!
A música brasileira perde uma figura representativa de sua capacidade de hibridação sem nem ao menos ter reconhecido adequadamente seu valor. José Ramiro, conhecido como Pena Branca, morreu aos 70 anos. O cancioneiro ficou famoso a partir dos anos 1980 quando formou dupla com seu irmão Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho. Nascido em Igarapava, no interior de São Paulo, em 1939, ele passou boa parte da infância e adolescência em Uberlândia, interior de Minas, onde seu irmão nasceu três anos depois dele e juntos trabalharam na roça. Sua incrível capacidade de mutação e experimentação materializa-se em 1987 com o álbum Cio da Terra, que abria com uma folia de reis e tinha clássicos como Caicó, de Villa-Lobos. A dupla viria a gravar canções do repertório de Milton, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Almir Sater, Renato Teixeira, Tavinho Moura e Ivan Lins, entre outros. Como lembra Rosa Nepomuceno no livro Música Caipira: Da Roça ao Rodeio (Editora 34, 1999), o repertório de Pena Branca & Xavantinho emparelhava essas vertentes da MPB "e modas sertanejas com o mesmo tratamento vocal, em duetos e terças". Porém, esse trânsito entre mundos musicais levaria os irmãos a se tornarem sempre "equilibristas", diz Rosa. Eles, por exemplo, não venderiam discos como Milionário e José Rico, "de repertório bem mais popular, com seu som grandiloquente de pistons mariachis e guitarras", nem sua gravação de Cio da Terra teria o impacto de Romaria (Renato Teixeira) na voz de "uma grande estrela como Elis Regina". "Música popular com sotaque matuto, bem recebida pela área intelectual, não se ajeitava nas faixas mais populares do público. Música caipira com sotaque de MPB causava um tantinho de estranheza no mundo sertanejo", acrescentou Rosa. Fonte: Jornal Estadão
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