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O manifesto dos que não dormem

Por Rádio Várzea Livre do Rio Pinheiros 107,1 FM

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O jargão “o povo acordou”, ou mesmo “o gigante acordou”, assim como as bandeiras e cores que passaram a desfilar nos protestos, introduzidos a partir do espectro nacionalista que envolve o país durante campeonatos disputados por nossa seleção, revela a tentativa de homogeneizar os manifestantes, amortizando assim as contradições de classe presentes em nossa sociedade, cenário que facilita a despolitização dos objetivos das manifestações por indivíduos e agrupamentos conservadores reacionários presentes, através da difusão de “pautas comuns” e abstratas, como a luta contra a corrupção, ou a luta contra a PEC 37. Outro expediente utilizado pela grande mídia para minar as correntes de pensamento progressistas é extrair a mobilização de seu contexto histórico, a partir da filiação direta e recorrente com as manifestações pela saída de Fernando Collor da presidência, em 1992, movimento que ficou conhecido por seu caráter social unificador, suprapartidário, e pela abrangência nacional.

Ainda que não seja possível generalizar, pois entre aqueles que ostentam a bandeira do Brasil e lançam gritos nacionalistas ao ar certamente há muitos de consciência política inexperiente e imatura, que foram às ruas demonstrar seu descontentamento com um sistema político e um modo de gerir a vida e a sociedade que não nos contempla. O que fica é a preocupação com os rumos que a esquerda deve tomar na continuidade da luta, principalmente em embates como o que ocorreu no ato do dia 20/06, na Av. Paulista.

A luta do povo pobre brasileiro, dos movimentos sociais, começou muito antes de qualquer bandeira da classe média conservadora ter sido levantada. Os sofredores perifanos já estão acordados há anos, lutando por moradia, por saúde, por educação, por terra, por transporte coletivo barato e de qualidade, pelo fim da violência policial, por emprego, por lazer, enfim, por dignidade!

A luta que fez eclodir o que acontece hoje no país é a luta do MPL pela mobilidade urbana, pelo direito à cidade para os mais pobres, uma questão social. A mudança de postura da imprensa corporativa, de encorajamento às ruas, vai muito além da sensibilidade com a ação violenta generalizada da polícia militar do dia 13. A violência policial não iniciou suas atividades no Brasil no dia 13 de junho, ela aconteceu antes e acontece todos os dias nas quebradas. Folha e Estadão, duas empresas que pediram a repressão dura às manifestações, o Grupo Abril, com sua revistinha semanal, que mudou o conteúdo de sua capa de última hora, curiosamente para apoiar os protestos; o Instituto Milenium, que tem seu porta voz (Arnaldo Jabor) na emissora de maior alcance nacional, a Rede Globo, todos estes tem como grande interesse ofuscar lutas sociais, seja através da criminalização, seja através da velha tática de só repercutir um protesto como legítimo quando as reivindicações não atacam os interesses de grandes capitalistas.

Existe uma intenção bastante visível das elites socioeconômicas, representadas pela mídia empresarial, de desestabilizar o Estado Democrático de Direito, dirigido atualmente por um governo de coalizão, parceiro do agronegócio, de grandes empreiteiras, do monopólio midiático, de especuladores, de conglomerados bancários ávidos pela privatização de estradas, ferrovias, portos, aeroportos; e promotor de políticas públicas sociais limitadas e compensatórias. Contudo, não podemos aceitar quaisquer investidas golpistas, já numerosas em nossa história política, contra a opção democrática eleitoral realizada por nossa sociedade!

O que propomos como horizonte não é a perspectiva de golpe institucional, mas sim a efetivação da democracia direta, que emana do poder popular, praticada cotidianamente, nas ruas, e não apenas nas urnas.

Queremos, dessa forma, compartilhar os posicionamentos já esboçados de fortalecer as lutas que estão sendo travadas nas regiões periféricas das grandes cidades, de fortalecer o apoio ao MPL. E propor a defesa da ação direta contra a polícia, prédios e bens do Estado, estabelecimentos comerciais de grandes empresas, agências bancárias, como uma maneira (não a única) legítima de tencionar a luta política, não condenada pela esquerda institucional.

A luta é por transformações sociais sim! E deve se distanciar dos velhos formadores de opinião, sedentos de um mundo desumanizado, pautado pelos interesses individualistas. Muito além do amor à pátria, a luta é pela solidariedade ao oprimido.

A luta é de classes.

Leia mais em: http://varzea.radiolivre.org/2013/06/25/quem-acordou-o-manifesto-dos-que-nao-dormem/

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